segunda-feira, 1 de junho de 2009

Entrevista Revista Bianchini - junho de 2009

ENTREVISTAS Desejo não é só sexo A insatisfação com a sexualidade faz aumentar a procura por terapia sexual. Cama não é campo de batalha e desejo não é apenas sexo, alerta terapeuta. 29/05/2009
Sorocabana de nascimento, formada pela PUC-Sorocaba em 1987, a médica Cibelli Aparecida Rosa especializou-se em ginecologia e obstetrícia. E ainda fazia residência, quando um fato despertou sua atenção: a freqüência das queixas em relação às questões sexuais que ouvia de suas pacientes, mesmo aquelas mais humildes, atendidas em postos de saúde. “No finalzinho da consulta, quando pegava um pouco mais de confiança, ela falava: ‘Doutora, tenho uma pergunta: não sei o que acontece comigo, acho que não tenho aquele fogo todo que eu gostaria de ter. Meu marido é muito forte, quer ter sexo sempre e eu não quero sempre, o que faço?’”. A partir de então, Cibelli passou a se interessar mais por essa questão. E depois de fazer especializações em psicossomática, psicodrama e terapia corporal, acabou se especializando em Terapia Sexual pela Faculdade de Medicina do ABC, há quatro anos. Desde então começou a trabalhar nessa área. Hoje, continua atuando com obstetra e ginecologista, mas é cada vez mais procurada como terapeuta sexual. Porque o tema está deixando de ser tabu e as pessoas estão cada vez mais buscando ajuda. Nesta entrevista, ela fala sobre as principais queixas e assegura que o diálogo é o principal remédio contra as disfunções de que as pessoas tanto se queixam.
Como a senhora vê Sorocaba nesse momento, até para a sua carreira como médica. Mudou muita coisa na cidade?
Até algum tempo atrás eu via Sorocaba como uma cidade grande, mas com um pouquinho de provincianismo. Isso está começando a melhorar agora, acho que as pessoas já estão se abrindo mais, estão buscando coisas novas para sua qualidade de vida, para sua cultura. Acho que essa minha atividade da terapia sexual se insere bem nesse momento também.
Há maior receptividade do sorocabano pra esse tipo de atividade do que há algum tempo atrás?
Sim, porque embora Sorocaba seja uma cidade grande, as pessoas se conhecem muito, e eu sei que existe aquele medo de, de repente alguém ficar sabendo que você está fazendo terapia sexual, o que vão pensar de mim? Então, eu acho que Sorocaba está ficando maior, as pessoas têm mais privacidade e elas confiam mais que vão fazer determinadas terapias, determinados tratamentos e permanecer anônimas. Acho que isso é um motivo importante pra qualidade do atendimento.
Há procura por um terapeuta sexual?
Sim, cada vez mais. Esse ano, depois que eu coloquei meu nome no blog, na internet, eu tenho visto que as pessoas estão buscando muito mais isso, pessoas de outras cidades até. Porque eu dependo muito de indicação de outros colegas, mas percebo que, se as pessoas me descobrem pela internet e veem que tenho uma formação profissional, que tenho qualificação, elas se sentem seguras, ligam, então eu tenho tido várias pacientes que têm chegado dessa maneira.
Por essa procura maior, a gente pode dizer que sexo é um grande problema ou é a solução?
Eu acho que são as duas coisas, mas eles me procuram quando o sexo está se tornando um problema, o que é freqüente. O que não é freqüente é a pessoa chegar ao ponto de tomar a resolução de procurar ajuda, porque existe a vergonha, os mitos, o medo de ser representado como fraco, como anormal, como incompetente, de ambas as partes, tanto do homem quanto da mulher.
Quem deve procurar terapia sexual, o casal ou apenas um dos parceiros?
A terapia sexual como ciência, que começou nos EUA com Masters e Johnson, principalmente na década de 60, e depois foi aperfeiçoada por Hellen Kaplan, busca, num primeiro momento, atender ao casal. Porém, eu procuro atender o parceiro que me procura, pois percebo que é o que está mais motivado, seja o homem, seja a mulher. A partir disso, conversando com o meu paciente, nós chegamos num acordo se vai ser uma terapia individual ou se vai ser uma terapia de casal. Mas eu tenho trabalhado mais com a terapia individual, porque percebo que o parceiro, quando está sozinho, traz conteúdos que não traria se o companheiro estivesse presente. Coisas da infância, de outros relacionamentos, queixas sobre o próprio parceiro que nem sempre veem quando é o casal. Agora, se o distúrbio é de comunicação principalmente, o casal precisa estar envolvido. Resumo: eu não trato sempre o casal, eu trato o parceiro que me procura e nessa avaliação conjunta, se for necessário faz o casal.
Quem procura auxílio com mais freqüência: a mulher ou o homem?
Tem sido mais a mulher. Historicamente é mais a mulher. Isso está mudando, o homem está procurando com mais freqüência, mas ainda quem procura mais é a mulher. Isso significa que a mulher tem mais problema sexual do que o homem? Eu acredito que a mulher se sente mais confiante em buscar ajuda. Pra mulher, buscar ajuda não é sinônimo de fraqueza. A mulher costuma se comunicar muito mais nas questões de sentimentos e emoções. Para o homem, a questão sexual é o pior da masculinidade. A masculinidade, nesse mundo moderno, está sendo posta em xeque o tempo todo, porque a mulher não é mais aquela que fica esperando o marido... Nesse ponto, o homem tem que acompanhar essa mulher e com isso os problemas sexuais masculinos acabam se tornando mais frequentes, porque a mulher assume mais seu desejo, seu merecimento de ser tratada como uma parceira que tem sentimentos, que tem vontade, desejos. Então, o homem está tendo que se adaptar.
Do que mais se queixam as mulheres e do que mais se queixam os homens?
Os homens ainda veem buscar terapia principalmente por disfunção erétil, chamada antigamente de impotência, que é um termo que se usa menos por ser pejorativo. Apesar das medicações facilitadoras de ereção, como o Viagra, a disfunção erétil ainda é uma causa importante de busca pela terapia, porque o homem percebe que mesmo usando a medicação, ele quer uma explicação, ele não quer ficar na dependência de tomar aquele medicamento pra ter relação sexual. A diminuição de desejo está se tornando uma queixa mais comum também dos homens, pelo estresse da vida moderna, pressão psicológica a que são submetidos, pressão que faz com que não haja energia, disposição, vontade suficiente pra ter um bom desempenho sexual. Tem também a ejaculação precoce. Já a mulher procura pela diminuição de desejo sexual e alterações de orgasmos. A questão da diminuição do desejo sexual na mulher, muitas vezes está vinculada à inadequação. Exemplo: um casal que tem relação sexual apenas uma vez por mês, se está tudo bem pra mulher e se está bem para o homem, é um casal que está adequado, não precisa de tratamento. Porém, se a mulher quer ter relação sexual uma vez por mês e o homem duas vezes por semana, já surge um conflito. Não dá pra dizer que a mulher tem um problema ou que o homem tem um problema. Mas o casal está precisando conversar e chegar num acordo. Muitas vezes, por isso, a mulher vem se queixando de desejo, o marido quer mais, ela quer menos, então é uma coisa freqüente, até pela questão de cumprir papéis, do que se espera de uma esposa. A outra queixa seria a ausência de orgasmos, cada vez as mulheres estão buscando mais o prazer sexual e existe o vaginismo também - mulheres que têm um espasmo da musculatura vaginal que impede a penetração, uma queixa que ocorre com menos freqüência, mas também acontece.
Falando da questão de comunicação entre os casais: será que essa falta de discussão da sexualidade permeia muito os relacionamentos que acabam de repente?
Eu vejo que a questão sexual aparece como a ponta de um iceberg e tem um monte de coisas por trás. Se um homem perde um emprego, está passando por uma crise financeira, é muito comum que ele comece a ter alguma alteração da sexualidade, disfunção erétil, diminuição de desejo, por exemplo. Se uma mulher se sente pouco apreciada como mulher, se não se sente ouvida, não se sente compreendida, também pode acontecer de ela ter diminuição de desejo, alteração de orgasmo, então a cama acaba sendo o palco onde se concretizam alguns papéis disfuncionais. Lá pode ser o momento de mostrar o seu ressentimento, a sua tristeza, sua raiva do parceiro. Não se tornando merecedor do prazer sexual e também não dando esse prazer para o parceiro. Então é o local onde acaba ocorrendo uma disputa, um ringue, em que ninguém sai ganhando. Se eles estiverem adequados, a tendência é que o dois saiam ganhando sempre, se sentindo mais amados, mais parceiros, mas quando a coisa está disfuncional, ninguém sai ganhando.
E o que uma terapeuta sexual recomendaria para um casal nessa situação?
Eu acho importante que as pessoas não esqueçam que, antes de ser marido e mulher, namorados, amantes, são indivíduos. Precisam dar ouvidos pras demandas internas: necessidades de lazer, de se cuidar tanto mental, quanto culturalmente. Ter sempre uma vida pessoal, cultivar isso, pra poder ter um recheio, algo interno que compartilhar com o parceiro, que não vai ficar sempre na dependência daquela relação pra existir no mundo. É claro que a relação é importante, mas acho que existe a mulher, o homem e o casal. Sendo pessoas inteiras, fica muito mais fácil você ter um vínculo, um bom relacionamento, um bom diálogo. Acho importante não levar ressentimentos pra cama, pro quarto, não levar isso para o dia a dia. Não deixar as coisas acumularem, porque ressentimento acumulado é uma das maiores causas de disfunção sexual. Quando a gente foca o individualismo, não é a questão do individualismo predatório, de se dar bem a qualquer custo. É a questão de você ser uma pessoa que está bem com você mesmo. Porque às vezes a pessoa é individualista no sentido de ganhar muito dinheiro, de ter uma posição social, e acaba não tendo rosto próprio.
E o que a gente faz pra estar bem com a gente mesmo?
Eu creio que ficar um pouco mais em silêncio, ouvir um pouco mais o que você tem a dizer pra você mesmo. Não ficar o tempo todo correndo atrás dos papéis que a sociedade impõe. Porque vai chegar um momento na vida em que a gente vai ficar só com essa essência, então se a gente se afastar dela acaba sobrando pouco.
Os casamentos acabam mais depressa, o índice de divórcio cresce, essas coisas têm a ver com tudo isso? As pessoas estão tão preocupadas com o papel social que se esquecem das dimensões humanas das relações?
Creio que sim. Os casamentos estão acabando, mas os relacionamentos persistem. E a gente vê casais que são casados há muitos anos e se dão extremamente bem. Mas você olha aqueles casais e você percebe uma harmonia, um vínculo, perpassa o tempo, independe da idade, da posição social. E você vê outras pessoas que se casam e você se pergunta: ‘ o que uniu aquelas pessoas?’. Daqui a pouco acaba e você fala ‘nossa, parece que realmente eles nunca estiveram juntos’. Não estou querendo dizer que o relacionamento e o casamento sejam instituições falidas, acho que de maneira nenhuma. A gente tem é que se dar ao direito de ser feliz, mas quanto mais souber o que você é, mais vai saber o que está procurando no outro. Se você não se conhece, como vai saber do que precisa?
E qual seria a sua receita para que os relacionamentos durassem mais?
Isso é complicado. Receita não tem mesmo, mas eu volto a dizer: cuidar de si mesmo, se amar, se dar merecimento, saber que você merece ser feliz, merece ter prazer, merece seu lugar no mundo. E encontrar alguém, um companheiro que queira criar isso com você. Uma pessoa que não precisa viver absolutamente 24 horas por dia junto com você, mas que tenha vínculos, seja um companheiro de estrada, permita que você seja você mesmo, você faz o mesmo pelo outro e juntos vocês formam uma terceira entidade que é um casal, é uma coisa nova que desabrocha. Assim como um casal produz filhos, produzir esse vínculo é uma coisa fantástica. Quando você encontra alguém que te completa, acho que é algo que vale demais.
E o homem está conseguindo se adaptar? Parece que ele está se sentindo em desvantagem nessa relação, ele era acostumado a mandar, ele era o machão, o provedor...
Eu acho que o homem está se sentindo em desvantagem sim porque ele está perdendo o poder que lhe era dado pela sociedade até alguns anos atrás. Se a mulher se apossar das suas qualidades, ela tem lugar na sociedade, que é o que a gente está vendo agora. Até pouco tempo atrás havia o mito de que a mulher só iria se realizar quando se casasse. Hoje, a gente vê muitas mulheres tendo uma vida ativa, sozinhas, solteiras e o homem, ainda, o que se vê, é que ele não consegue levar bem uma vida solteiro, sozinho. Mas também eu acho que agora é o momento do homem começar a se avaliar como ser humano que tem sentimentos, que tem direito de ter fraquezas. Só que é complicado, por isso que eu te digo, cada vez mais o homem se queixa da diminuição do desejo sexual. Pelo próprio fato de estar se sentindo solitário, com um papel não tão definido na sociedade.
Será que ele está se sentindo caça?
Também, isso já seria pra mulher assumir um papel masculino naquilo que ele não tem de tão sedutor, que seria tratar o sexo como algo mais passageiro, desvincular o sexo do sentimento. O sexo é uma coisa, amor é outra. Quando as duas coisas estão juntas, surge algo maravilhoso, que é um relacionamento porque as pessoas se amam e gostam de fazer sexo. Até pouco tempo atrás isso seria almejado pelas mulheres e pelos homens, se for assim ótimo, senão sexo por sexo, tudo bem. E hoje em dia as mulheres estão começando a encarar o sexo por sexo como algo normal. Não critico isso, só que eu imagino que a mulher, se começar a se tornar muito predatória, pode começar a se afastar da sua essência feminina.
Ela deixa de ser objeto e transforma em objeto?
Isso, mas eu acho que ninguém deveria ser transformado em objeto. Houve uma liberação sexual muito grande, mas amor é amor e sexo é sexo. Mas sexo com amor é muito melhor. Muito melhor, acho que é o que todo mundo quer.
Mas hoje não tem muito isso né?
Acho que é isso que muitas vezes falta, aquelas piadinhas, que homem e mulher são casados há muitos anos, e o homem fala: “amor é em casa e sexo é fora”. Então, juntar tudo. Porque que você não pode amar e gostar de fazer sexo com a mulher que está do seu lado? Estamos caminhando para um novo ser humano ou a gente pode continuar repetindo as mesmas piadinhas e defeitos que faz com que o ser humano não seja assim tão maravilhoso? Eu acho que isso é uma escolha de cada um. O ser humano sempre foi maravilhoso. O que a gente precisa é descobrir esse ser humano que já existe dentro de nós e que está escondido debaixo de tantas capas como acabei de falar pra você, que seja alguém proeminente, que ganha muito bem, que seja um pai fabuloso, o marido perfeito. Esse ser humano está escondido, você nem descobre onde ele está, porque ele está escondido atrás de tantos papéis que você tem de agir no dia a dia. E o sexo, quando feito de uma forma humana, sensível, com sentimento, ele pode ser um aspecto importante para o homem chegar mais perto da sua essência. Porque na hora da relação sexual o homem é simplesmente um ser humano, ele está despido dos seus papéis. Se ele se permitir ser só ele nessa hora, eu acho que é um caminho pra ter mais paz interior, pra se conhecer melhor e ter um relacionamento mais pleno com quem está do seu lado.
Como as pessoas podem trabalhar com a sexualidade?
A sexualidade é própria do ser humano, ninguém deve se envergonhar por ser um ser sexual. Então vamos aproveitar o que de bom nós podemos usufruir disso. Então, se a mulher ou o homem está insatisfeito com a sua sexualidade, se for necessário procurar uma terapia, ótimo. Mas leia, se informe, existem livros bons e éticos a respeito disso, converse com o seu parceiro, expresse suas dúvidas e preocupações com carinho. Na sexualidade, o tratamento medicamentoso é exceção. O importante é você resgatar o desejo que existe em você, que é próprio do ser humano. Afinal, desejo não é só sexo, desejo é desejo pela vida, a libido, o desejo é algo que nos motiva a ir cada vez mais pra frente.
Por Julio Cesar Gonçalves julio@editoraa2.com.br Foto: Matheus Mazini

Um comentário:

Prof. Ademar Oliveira de Lima disse...

Estive por aqui aprendendo mais um pouco sobre sexualidade!! Abraço Ademar!!